A convocatória Cartas da Laranjeira, é uma ação de fotógrafos e artistas visuais que reivindica melhorias nas políticas culturais do estado da Bahia, com muito humor e insistência, a luta é pelo retorno do Prêmio Nacional Pierre Verger entre outros pontos que sofreram retrocesso com as últimas gestões públicas no estado. Resumo da história, estamos expondo junto a 100 artistas de todo o Brasil, numa das ruas do Pelourinho.

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Há seis décadas, Voltaire Fraga fez uma captura de longa exposição deste lugar, num instante noturno da Rua Chile. Talvez essa seja uma das imagens mais alegóricas do destino ora ambíguo, ora contraditório do palimpsesto em que se converteu a área de nascimento de Salvador. Em breve, a cidade começaria a se esvair das mãos dos principais elementos que essa fotografia anatomiza: os edifícios, os transportes, o comércio, a gente. Os prédios elevam-se simbolicamente, quase fundindo-se na escuridão superior, solenes em sua imobilidade, mas frágeis ante os novos arranhacéus modernos. Um bonde se perde na profundidade da rua, fugaz em sua dinâmica, mas desbravador de percursos cada vez mais distantes. A textura das pedras rasgadas pelos trilhos reflete o brilho ofuscante dos anún- cios da Farmácia Chile. As pessoas são invisíveis, desmaterializadas, apenas manchas deixadas pelo fluxo dos passantes. Só o neón parece estar vivo enquanto todo o resto torna-se fantasmagórico.
A atmosfera é da iminência de algo desconhecido que parece pesar sobre aquele presente. Do instante fotográfico vem a certeza daquilo que será recordado.

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Hoje, o asfalto sepultou as texturas de outrora. A rua é apenas eixo viário e impessoal. Um tapume azul se ergue diante da persistência mineral do velho edifício dos Comerciários. Uma nova iminência se desenha alavancada por interesses desesperados por novidade mercadológica. Aquela fotografia de 1952, exercício de penumbra e reflexos, é mais um fantasma de um tempo de sutilezas. Hoje, a revitalização gentrificada resume as intenções de prioridades embrutecidas por objetivos cada vez mais cínicos. Assim, a fotografia de Voltaire Fraga é o testemunho incômodo de uma tragédia anunciada.

Nesse mesmo lugar que hoje 100 artistas visuais e fotógrafos da Bahia e do Brasil, a partir de uma convocatória aberta, oferecem uma possibilidade de reflexão sobre a iminência da perda de conquistas das últimas décadas. Esse mesmo lugar que hoje é ocupado com uma mobilização decorrente das reflexões e reivindicações encaminhadas a Secult na Carta das Laranjeiras.

A exposição é um meio para discutir a importância da esfera pública da cultura e da necessidade de continuidade das ações e projetos culturais de médio e longo prazo. Um ato de resistência cultural contra todas as tentativas de desmonte do sistema artístico em nome das prioridades políticas pragmáticas duvidosas. Uma proposta de expansão dos recintos tradicionais, do âmbito restrito das galerias e dos museus. A redenção da dignidade da rua como lugar de encontro muito além do engajamento de sofá e do anonimato confortável das redes sociais. Não são palavras ao vento: são objetos artísticos que educam nossa sensibilidade sobre os tempos que vivemos. Arte que ensina uma dimensão de cidadania brasileira, que revela uma intensidade máxima da experiência baiana, que condensa o potencial material e simbólico da nossa sociedade soteropolitana.

Por Alejandra Mu oz & José Mamede

 

Aqui vocês podem encontrar o catálogo completo da exposição, com muito mais informações:

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