Viajar na Índia com certeza não é uma das tarefas mais fáceis mas sem dúvida essencial na vida de qualquer pessoa. É preciso ter muita disposição força de vontade, além de estar aberto aos muitos imprevistos e a lidar com a abundante burocracia Indiana. Dito isso, namastê, benvindo a India, um país maravilhoso, receptivo, impressionantemente colorido e que tem como seu maior legado, o próprio povo Indiano.

A não ser que você fique hospedado na casa de um Indiano, o que eu altamente recomendo, a maneira mais divertida e verdadeira de conhecer o dia a dia e os costumes dos indianos é sem dúvida usar a malha ferroviária indiana, uma das mais extensas do mundo, conecta todo o país e se expande para países vizinhos como Bangladesh e Paquistão.

A vida nos trilhos Indianos.
Plataforma da estação Varanasi Junction, India, março de 2015. © Gui Galembeck

Eu passei um mês viajando por esse enorme país entre fevereiro e março de 2015, e sem dúvida foi uma das experiências mais marcantes de minha vida. A Índia é o segundo país mais populosos do mundo, esqueça se você esta programando tempos de paz e solidão, você vai conviver com muito e muitos indianos o tempo todo. Assimilar de uma maneira um pouco mais profunda a cultura de um povo é um dos objetivos que me proponho ao programar viagens.

A vida nos trilhos Indianos
Família viajando em vagão da terceira classe, India, março de 2015. © Gui Galembeck

Comprei todas minhas passagens online e embora o sistema seja extremamente confuso e burocrático, envolvendo emails com cópias de passaportes e até a liberação de um número de celular indiano para que você consiga reservar as passagens no website, com um pouco de paciência e muita insistência você estará apto a viajar. Ainda assim, comprar a passagem não quer dizer que você terá o seu acento no vagão, já que a lista de viajantes só sai algumas horas antes da viajem. É importante que você confirme um dia antes sua viajem ou compareça a estação e conte com a sorte. Nesse momento me lembrei de uma história interessante, o golpe do Incredible India.

A vida nos trilhos Indianos
Sala de espera da Estação de Jaipur, India, março de 2015. © Gui Galembeck

Incredible India foi um programa massivo de incentivo ao turismo no India, foi aceito mundialmente e teve êxito sob diversos pontos de vista, aumentando drasticamente o turismo mas ao mesmo tempo desencadeando uma rede de pequenos golpes nas agências de turismo de Delhi, que fazem o impossível pra vender pacotes de viagens superfaturados, forjam epidemias locais, e até tentam lhe convencer que as passagens que você comprou pela internet são falsas ou que simplesmente não foram confirmadas, porque você não é indiano e você não poderia estar comprando online, provavelmente você vai perder o trem amanhã e a salvação seria, obviamente, comprar novas passagens através da agência ou até mesmo quem sabe caríssimas passagens de avião, uma tremenda farsa. Tivemos que ser fortes inúmeras vezes durante os dois primeiros dias em Deli, pois todos os motoristas de Tuk Tuk tentavam nos enfiar dentro de uma agência falsa do Incredible India.

A vida nos trilhos indianos
Delhi-Varanasi, A vida nos trilhos indianos, março de 2015. © Gui Galembeck

Minha viajem começou em Delhi, sentido Varanasi, a cidade sagrada dos hindus e do lendário rio Ganges, um trajeto de pouco mais de 700km que levaram quase 24 horas para serem percorridos devido a inúmeros atrasos e imprevistos com direito a duas horas parado no meio do nada esperando sei lá o que exatamente. No total eu cruzei mais de 3000 km pelos vagões indianos. Depois de Varanasi, retornei a Agra, Jaipur, e segui Rajastão adentro, retornando mais tarde a Delhi. Nesse mesmo período mais de 660 milhões de pessoas utilizaram o sistema que leva aproximadamente 8 bilhões de passageiros por ano.

Logo de início percebi que o indiano não tem limites, o que me colocou em algumas situações bem inusitadas. A começar com o fato de que eu era encarado o tempo todo, não por algum tipo de recriminação ou preconceito, mas sim por curiosidade, o Indiano não mede esforços para notar e ser notado, ou seja não existe qualquer chance de que você passe despercebido durante sua viajem. A coisa foi tão longe que criarmos uma expressão,  “A incrível arte de encarar as pessoas”, na qual eles são mestres.

A vida nos trilhos indianos
A vida nos trilhos indianos, março de 2015 © Gui Galembeck

Os trens indianos tem são enormes e existem várias classes de viajem, desde o assento duro até as cabines de primeira classe, que nada tem de primeira classe, mas é possível se ter um pouco de privacidade. Normalmente viajávamos na terceira classe, que conta com cabines de 4 ou seis camas, sendo que duas delas são retráteis, ou seja, durante o dia, vai ter um monte de gente sentada na sua cama.

Partindo de Varanasi sentido Agra, acordei no meio da noite com uma família invadindo a cabine de seis camas na qual eu estava quase que por um milagre sozinho. Mina esposa estava numa cabine lateral mais privativa. Nitidamente eles falavam sobre mim, mas eu me fiz de morto e fiquei apenas observando. Parece que eu havia colocado a mala no lugar errado ou sei la o que. Acordei com o cheiro de Tchai e um senhor simpático, provavelmente o pai daquela família me oferecendo um copinho de papel, sorrindo e jogando a cabeça de lado, o típico gesto indiano.

A vida nos trilhos indianos.
A vida nos trilhos indianos, março de 2015. © Gui Galembeck.

Em outra situação inusitada, depois de trocar algumas vezes de cama pois não estava contente com a minha, o trem encheu a noite enquanto eu dormia e na manhã seguinte, eu acordei com um senhor sentado na minha cama, olhando para fora e fazendo sua primeira oração do dia, pois exatamente ali, estava batendo os primeiros raios de sol da manhã. Fiquei imaginando que talvez aquela fosse a cama dele, mas por incrível que pareça, em momento algum ele se incomodou com o fato de que eu acordei e instantaneamente tirei uma máquina fotográfica de baixo do meu travesseiro e comecei a fotógrafa-lo. Depois de sua oração, ele agradeceu, se levantou e saiu.

Oração aos primeiros raios de sol. A vida nos trilhos indianos, março de 2015. © Gui Galembeck

O que posso dizer é que o período em que passei fazendo alguns trajetos de trem na Índia, me colocou cara a cara com o Indiano comum e sua mais simples rotina diária. Me colocou como parte dessas famílias, mesmo que por um curto período de tempo Essa experiência me fez entender coisas que normalmente eu não teria a oportunidade de aprender. Algumas coisas se tornaram obvias, como o fato que normalmente os indianos viajam em grupos, que não tem melhor hora para um Tchai do que agora, e que o tempo é apenas uma invenção, tudo pode e vai atrasar. Eu estava no lugar certo para tentar entender um pouco mais sobre a cultura indiana. Sem dúvida é algo que todos devem fazer pelo menos uma vez na vida.


Curiosidades sobre a India e sua malha de trens:

  • A India é o sétimo maior país do mundo em área, o segundo mais populoso com 1.2 bilhões de pessoas e a democracia mais populosa do planeta.
  • É notável a diversidade religiosa indiana, com hinduísmo, budismo, siquismo, Islamismo, Cristianismo e Jainismo entre suas religiões principais. O Hinduísmo, sua religião predominante e foi moldada por diversas linhas históricas de pensamento incluindo os Upanixades, Yoga Sutra, Movimentos Bhakti e a filosofia Budista.
  • O nome India deriva de Indus, originada da antiga palavra Persa Hindus, uma referência histórica direta ao rio Indus.
  • O comércio de especiarias entre India e a Europa é citado por historiadores como catalisador para a era das descobertas européias.
  • A IRCTC é uma das malhas ferroviárias mais extensas do mundo, cobrindo 115.000 km de trilhos sob uma rota de 67.312 km e 7112 estações.
  • As Ferrovias foram introduzidas na India no ano de 1953 de Mumbai a Thane, chamada Great Indian Peninsula Railway. Em 1951 o sistema foi nacionalizado e unificado, formando uma das maiores malhas ferroviárias da atualidade.
  • O trajeto de Allahabad a Jabalpur da East Indian Railway foi aberto em junho de 1867. Brereton foi o responsável por unir este trajeto com o trajeto de Mumbai a Thane resultando numa malha combinada de 6400 km. Assim se tornou possível viajar de Mumbai a Calcutá. Essa rota foi oficialmente aberta em 7 de março de 1870 e foi parte da inspiração do escritor inglês Jules Verne para o livro “A volta ao mundo em 180 dias”.